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O que é câncer?

30/01/2018 Por: Instituto Mário Penna Categoria: Fale com um especialista

O histórico do Câncer passa por um médico chamado Galeno, 200 anos depois de Cristo: ao examinar uma lesão em uma mama, teve a percepção que se parecia com um caranguejo – em grego, Karkínos.

A medicina manteve esta impressão porque as patas do caranguejo passam a ideia de uma doença invasiva e com potencial de se disseminar à distância, o que chamamos de metástase, diferente do conceito de um tumor benigno – cuja etimologia vem do latim tumori (inchaço) –, que seria uma doença que não é invasiva e sem o potencial de dar metástase.

Não é para menos que, no imaginário das pessoas, a ideia do câncer como algo “maligno” e, portanto, algo mal e perverso, as leva a sentimentos diversos relacionados à finitude da vida, ou seja, à morte, diferente do tumor benigno, que tem um comportamento “bom” por não ser invasor ou metastático, e não leva a essa associação.

Agora, para ter uma visão mais detalhada do que é câncer, vamos emprestar para o médico Galeno um microscópio. O que ele veria?

Galeno provavelmente veria que o câncer na mama daquela mulher é composto por diversas unidades pequenas chamadas de células, unidades que compõem nosso corpo que, quando se juntam, formam tecidos e órgãos. Por exemplo: sua pele é um tecido composto de células epiteliais, e seu fígado é um órgão composto de células chamadas hepatócitos.

Todo o nosso organismo é composto por um quatrilhão de células – e o que surpreenderia Galeno é que todos os dias perdemos um trilhão delas.

Mas você se perguntaria: porque não desaparecemos todos os dias? Porque nosso organismo produz o mesmo trilhão todos os dias. Por onde perdemos este tanto de células que não vemos? Um exemplo são as células do sangue (hemácias, leucócitos, plaquetas), as células do couro cabeludo, as células da boca e as do intestino.

As hemácias, cuja falta leva a sintomas de anemia, duram 3 meses. Já os leucócitos, que são as células responsáveis pela defesa do corpo, após a sua liberação na circulação duram em torno de 4 a 8 horas. Nos tecidos onde são necessários, duram de quatro a cinco dias e o seu organismo repõe tudo de forma ordenada, sem você se dar conta.

Em termos de órgão, o mais impressionante é o fígado: se retirássemos a sua metade, os hepatócitos receberiam a mensagem para proliferar mais do que antes e reconstruir o órgão inteiro.

Mas quem dá a ordem?

Em termos celulares, é uma molécula dentro do núcleo de cada célula chamada de DNA (ácido desoxirribonucleico) que percebe a necessidade de crescimento de um tecido ou órgão lesado e o repara até o que era antes. São estas moléculas que compõem os nossos genes, que dizem qual será a cor dos nossos olhos, da nossa pele e a nossa altura.

O evento mais belo acontece quando o DNA de um homem se junta com o DNA de uma mulher, no momento do encontro de um espermatozoide com um óvulo, formando uma célula que se multiplica diversas vezes, gerando novas células que migram num pequeno corpo, formando órgãos e tecidos e, ao final de nove meses, temos vida e não morte: uma criança.

Então, ao olhar no microscópico o tumor da mama, Galeno teria uma visão de células em crescimento desordenado, o que, tecnicamente, chamamos de neoplasia (crescimento novo).

O que acontece no tumor benigno, que seria uma neoplasia com crescimento maior mas ordenado, e no câncer, que seria uma neoplasia com crescimento maior mas desordenado?

Porque ele fica desordenado?

Porque, por tudo que já foi descrito, nosso DNA tem um papel muito delicado de equilibrar o número de células produzidas com o de células perdidas. Quando este equilíbrio se perde, ou seja, se produz mais que o necessário, ou morrem menos células que deveria, teremos uma neoplasia, benigna ou maligna.

A percepção que este crescimento de células é desordenado é correto, mas não necessariamente é rápido; as células que mencionei como hemácias e os leucócitos crescem e se duplicam muito mais rapidamente que um câncer de mama. O que define uma neoplasia é o crescimento incessante, e não veloz.

Isso é fácil de perceber quando um paciente faz quimioterapia, porque a primeira coisa que vemos é a queda do cabelo, logo após a primeira dose, uma vez que as células dos folículos pilosos do couro cabeludo crescem muito mais rápido do que as células tumorais da neoplasia – e, por isso, são logo afetadas pelo tratamento, muito antes do tumor diminuir.

Todo esse mecanismo muito regulado é responsável por tudo que entendemos como vida e não morte: reconstruir um tecido, um órgão ou o desenvolvimento de uma criança.

Mas, como tudo na natureza, podem acontecer erros, que no caso do DNA nós chamamos de mutações. Como o DNA é a molécula dos genes, podemos dizer que o câncer é uma doença sempre genética. Mas atenção: nem tudo que é genético é hereditário; na verdade, só menos de 10% dos tipos de câncer passam de pais para filhos.

Veja bem: por várias vezes no texto foi falado de vida e não de morte, células que se proliferam e reconstroem tecidos ou órgãos, o nascimento de uma criança, isto tudo é saúde e não doença. Não há nada de maligno ou mal no câncer, são as consequências da doença que nos levam a essa percepção, pela perda de pessoas que amamos ou pela dor que pode causar um tumor de crescimento desordenado.

Neste sentido, a diabetes também pode ser “maligna” ao levar a feridas nos pés que não cicatrizam, à amputação de um membro por insuficiência vascular, levar à perda da função do rim com necessidade de diálise ou mesmo à morte por infarto.

Já num câncer, a chance de resultados mais favoráveis do que você ter diabetes ou já ter tido um infarto dependerá do tipo de câncer e do quanto ele avançou no corpo, o que chamamos de estadiamento, que vai do 0 (mais inicial) a IV (mais avançado).

O fato é que não há razão para sofrimento, temos que colocar a natureza a nosso favor e não contra nós. A sua natureza, os seus genes, foram feitos para funcionar corretamente, desde que você não traga injúrias desnecessárias, como tabagismo e hábitos não saudáveis.

E, mesmo assim, com todos os cuidados, a natureza pode errar com você, como erra com terremotos ou outros desastres que não tem a intervenção do homem. Neste caso, confie na natureza humana de sempre ter compaixão pelo próximo, por mais egoístas que sejamos. Isso serve para todos à sua volta, não só para quem lida com a doença, como médicos e enfermeiros. E, acima de tudo, confie na sua natureza, que é sempre ordenada, mesmo que algumas células do seu corpo não saibam disso.

O objetivo deste texto é tirar a sombra do medo, que é seu pior inimigo – e não o câncer –, com o intuito de que você faça perguntas ordenadas para seu médico: que tipo de câncer eu tenho? É mais ou menos agressivo? Qual o estadiamento da doença? Quais são as chances de cura com o tratamento que está disponível? Se não há cura, o quanto eu posso viver mais com esse tratamento? Eu viverei com melhor com qualidade de vida?  E, muito importante: quais são as complicações e sequelas que posso ter com este tratamento que está sendo proposto?

Sem medo, e empoderado com essas respostas, suas chances de sucesso podem aumentar infinitamente simplesmente porque, na maioria das vezes, você não precisa decidir na primeira consulta.

Meu conselho: vá para casa e pense ordenadamente sobre quais são os seus objetivos de vida e o que terá que ser revisto agora, com o diagnóstico da doença. Assim, você chegará para seu médico com objetivos a curto, médio e longo prazo. Converse novamente sobre o que o tratamento pode lhe oferecer para atingir estes objetivos. E a cada objetivo viável cumprido, comemore! O que é mais que se alegrar, porque comemorar vem do latim comemore, que significa lembrar.

Lembrar que durante toda sua vida você fez escolhas e se adaptou com que a vida lhe deu e com isso aprendeu a ser feliz. Isto vale para todos, ninguém é pobre o bastante ou rico suficiente que não precise fazer suas escolhas.

Não deixe uma doença tomar as decisões por você simplesmente pelo medo de falar de um caranguejo.

Por:

Dr. Marcos André Marques Portella
Médico Oncologista  e Clínico do Instituto Mário Penna

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